O Político de visão estratégica
A adequada análise da realidade social contemporânea transcende limites paroquiais e exige do político ampliação de sua visão. Torna-se necessário um olhar mais abrangente e focado, a um só tempo. É indispensável também a capacidade de articular ações com vistas ao alinhamento das demandas de seu universo de ação às imposições da globalização, que incide diferenciadamente sobre a sociedade nos níveis federal, estadual e municipal.
Essa nova condição de interdependência induz a um comportamento político caracterizado por uma dinâmica proativa e prospectiva. É preciso decodificar os possíveis desdobramentos e impactos futuros das decisões tomadas nos diversos níveis da política sobre o ambiente de atuação do líder. O trabalho do político exige competência para se relacionar com todos os agentes sociais e econômicos que dinamizam o jogo de interesses e aproximar representantes de causas diversas e, muitas vezes, contraditórias. A capacidade de negociar e buscar soluções consensuais é cada vez mais privilegiada e demandada.

Para tanto, é fundamental que o político tenha à sua disposição informações inteligentes e capazes de ajudá-lo a se posicionar de forma eqüidistante e decidir com base nos interesses que representa. Sua decisão, em nível estratégico, deve se voltar à integração social e não focar-se apenas, como é comum, no atendimento de interesses corporativos e pontuais, que no longo prazo resultam em desagregação social e impasses estruturais.
Para acessar informações inteligentes os políticos precisam de bons assessores, que tenham capacidade e treinamento adequado para prospectar e analisar o que ocorre no entorno e oferecer condições objetivas de decisão. Isso significa que a visão estratégica do político é composta por um sistema que prospecta e analisa o ambiente. Em outras palavras, é fundamental dispor de uma boa equipe que lhe ajude a aprimorar sua performance.
Saber utilizar a tecnologia de informação e comunicação para estreitar seu relacionamento com sua base eleitoral e outros eleitores, além de instuições é uma competência essencial. Nessa era globalizada em que vivemos, a política sofre impactos intensivos da tecnologia e do movimento social, isto está tornando-a cada vez mais midiática e dinâmica, o que imporá uma mudança em sua lógica estrutural: deverá deixar de ser reativa e funcionar a reboque da sociedade e tornar-se proativa, alinhada às demandas sociais. E isso só é viável se houver adequado uso dessas tecnologias de informação e comunicação e se elaborar estratégias de relacionamento eficazes.
Os desafios que se apresentam ao político profissional são imensos, mas são consentâneos aos que se impõem a todas as carreiras. O que diferencia a ação política das demais profissões é o fato de que o político é o elo de ligação mais orgânico entre o cidadão e o Estado e as instituições. Essa característica lhe dá uma conformidade específica, pois requer envolvimento emocional e ação racional, para conseguir entender as demandas de seus representados e da sociedade como um todo.
Novas variáveis moldam a ação política; entre elas, as questões ambientais e as decorrentes das conquistas da cidadania. À medida em que a democracia avança novos direitos são consolidados e também novos deveres. As instituições, geralmente muito resistentes à mudanças, precisam adequar-se à realidade contemporânea e mudar sua estrutura organizacional focando-se efetivamente nas suas clientelas.
Somente a ação política, com visão futura focada no desenvolvimento da democracia e na construção de uma cidadania muldiversificada, pode promover essa mudança. Para tanto, o político precisa atuar como mediador, negociando interesses e propondo legislações avançadas de forma a garantir o pleno funcionamento institucional que, numa democracia real, concentra-se no interesse do cidadão e não das corporações, como é o que ocorre atualmente.
Fazer política no século XXI exigirá muita capacidade para tornar os parlamentos alinhados à dinâmica social. Não é concebível parlamentos reativos e defasados. É necessário uma urgente mudança de mentalidade. Daí, a importância fundamental de se discutir a reforma política de forma prospectiva e não voltada para a preservação de interesses conjunturais, como tem ocorrido. Uma reforma no sistema político brasileiro deve ocorrer em todos os níveis, pois a política ocorre, precipuamente, do município para a federação, e não o contrário.

É preciso definir as atribuições efetivas dos vereadores, dos deputados estaduais e federais e dos senadores. Pois como está colocada a questão, no debate, não obstante as atribuições constitucionais, há uma indefinição de funções e superposição de papéis entre algumas dessas instituições políticas e seus âmbitos de ações.
Qualquer quer seja a reforma política brasileira deverá abranger, prioritariamente, o combate as desigualdades sociais, a correção dos desequilibrios regionais e a promoção do crescimento econômico para gerar emprego e renda. Por isso, as demais reformas estão ligadas ao sistema político. A questão tributária, por exemplo, vincula-se ao equilíbrio/desequilíbrio e à geografia político-econômica regionais, suas oligarquias e os grupos hegemônicos locais etc.
E a demanda pelo crescimento econômico justifica-se pela necessidade de fortalecer o mercado de consumo interno. Este depende de distribuição/transferência/conquista de renda pelos excluídos; de um sistema de ensino eficaz e capaz de preparar os brasileiros para competir num mundo globalizado e excludente e de criação de emprego formal.
A formalização da economia e a legalização de empresas deverá gerar estabilidade psicossocial e econômica e diminuir a violência social, bem como diminuir o crescimento perverso dessa cultura do jeitinho brasileiro, do salve-se quem puder, do individualismo, do egoísmo e de outras mazelas culturais próprias da realidade brasileira contemporânea.

O político de visão estratégica não deve se preocupar em resgatar nenhuma imagem histórica junto a população. Precisa, sim, construir uma nova imagem, baseada no comprometimento, na solidariedade, na ética e na honestidade de propósitos. Somente assim, o Brasil poderá participar competitivamente do século XXI, que promete muitas crises, mudanças estruturais, interpenetração cultural e globalização econômica. Este político deverá contribuir para a criação de condições objetivas para a construção de uma cidadania local sólida e preenchida de valores globais solidários e includentes.

Antonio Flavio Testa, sociólogo e cientista político da UNB

Camila Martins/UnB Agência
Antônio Flávio Testa é pesquisador de inclusão digital e cidadania no Departamento de Educação da Universidade de Brasília (UnB). É antropólogo, sociólogo e cientista político. É mestre e doutor em Sociologia, com pesquisas sobre violência, inclusão digital e ação política.

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