REDES SOCIAIS E OPINIÃO PÚBLICA

REDES SOCIAIS E OPINIÃO PÚBLICA

 I
Atualmente, é possível observar dois processos sociais que se chocam e tendem a promover uma transição cultural interessante, sobretudo no que se refere à cultura política dominante.
Por um lado, há o comportamento do cidadão que é midiatizado de forma intensiva e volátil, superficial mesmo, principalmente pelo uso intenso das redes sociais, com destaque para a internet e seus diversos aplicativos, sobressaindo-se o facebook   e o whats app. Neles são colocadas opiniões de forma quase instantânea, ação movida por impulsos digitais, telemáticos, pode-se dizer. 
A verdade é que a formação de opinião nas redes sociais decorre da capacidade que o indivíduo tem de registrar, principalmente, imagens, slogans, frases de efeito, registrá-las mentalmente e fazer a devida reflexão intelectual.
 As mudanças que ocorrem no universo cognitivo humano, no ambiente digital são – tudo indica – profundas, mas ainda não totalmente decodificadas pelos estudiosos desse novo fenômeno social, que é a formação de opinião a partir do acesso a esse ambiente.
Sabe-se que a atenção do indivíduo tem um valor inestimável no universo digital. O cérebro humano  é capaz de registrar incontáveis informações, de todo tipo; mas não há, ainda, um sistema de medição que permita aferir qual o impacto real desses estímulos informacionais no processo de decodificação das mensagens registradas. Os estudos de neuromarketing e de outras áreas da neurociência desenvolvem estudos nessa área do conhecimento.
O processo intelectual tradicional aplicado à narrativa das redes sociais exige atenção na leitura, para decodificar melhor as mensagens – e requer pesquisa e análise para entender o processo e o sentido das mensagens veiculadas na velocidade e ubiquidade das redes sociais. Além de capacidade para entender  a percepção simbólica e a linguagem interpretativa e narrativa dos inúmeros  grupos específicos, com os mais variados matizes ideológicos e interesses, que navegam nos oceanos digitais.
Esse fenômeno torna-se muito evidenciado em momentos de discussão sobre temas relevantes para a sociedade e para a política, sobretudo.  E esse traço cultural de usar as redes sociais e seus aplicativos revelam um tipo de comportamento social e político diferenciado, mas que não necessariamente leva à formação de uma opinião consistente, mas permite, no entanto, pela quantidade de replicações,  caráter viral, amplificar a ressonância das mensagens e a captura instantânea da atenção de incontáveis pessoas, que acessam a esses mecanismos midiáticos e assimilam subconscientemente muitas dessas mensagens.
Esse processo induz a um tipo de comportamento político que é facilmente manipulável, porque tem a capacidade de massificar mensagens de forma individualizada. Ou seja, o indivíduo recebe de forma bem particular a pressão das mensagens, geralmente na forma de imagens, micro vídeos, frases de efeito e slogans, que se prestam mais a induzir o indivíduo a tomar uma posição, a favor ou contra, mas nem sempre com base em argumentos consistentes.
Essa narrativa é muito visível nas tentativas de construir ou desconstruir imagens de personalidades públicas. Esse tipo de comportamento, no entanto tem suas vantagens, pois as mensagens veiculam numa velocidade incontrolável, pela “viralização” e pela massificação customizada, para utilizar uma expressão do marketing digital.
A imagem pública, a reputação, as práticas e exemplos, positivos e negativos, tornaram-se importantes elementos nessa narrativa. O impacto negativo sobre as personalidades pode ser altamente prejudicial, porque desconstrói imagens públicas construídas durante longo período, com outras ferramentas comunicativas e processos gerenciais.
A reconstrução de uma imagem no mundo digital, sobretudo de personalidades e marcas de empresas e de produtos, tornou- se um desafio difícil para os novos gestores desses processos, por conta sobretudo da “viralização” e do caráter ubíquo. E isso no jogo político é nefasto, pois atinge a opinião pública com a força incontrolável da mídia digital e sua capacidade de irradiar influência instantânea.
A vantagem desse processo é que se fatos positivos, ações corretas e imagens públicas decentes se mantiverem na mídia digital, levam uma vantagem profunda na construção de um processo relacional de aceitação social e pública.
Portanto, as mídias digitais tem grande valor para a construção de uma cidadania digital, mas como instrumento, ou conjunto de ferramentas tecnológicas, que requerem bons conteúdos para produzirem os efeitos transformadores que a tecnologia, por si só, não proporciona.
REDES SOCIAIS E OPINIÃO PÚBLICA II
A segunda estrutura social desse embate conceitual e até histórico é a cultura política tradicional e ainda dominante.
Ela tem mantém seus traços oligárquicos, clientelísticos, fisiológicos, corporativos, corruptos e seus representantes, historicamente, não se preocuparam com os interesses sociais, na prática; não obstante o discurso populista ter predominado, ao longo de nossa história.
Os processos de manipulação das massas sempre se pautaram pelo controle do acesso à boa informação. , Considera-se boa informação aquela que auxilia o indivíduo a decidir a partir da análise crítica, que começa por entender o que está em jogo nas disputas políticas; quem ganha e quem perde, o que? Como funciona a estrutura de poder? Qual o meu papel, minha função nesse processo? 
Por isso, o processo de manipulação política e social começa pelo controle dos sistemas educacionais, passa pelos sistemas de comunicação, pelo controle do acesso aos recursos públicos gerados pela poupança da sociedade, mediante impostos, taxas, multas  e confiscos variados.
E hoje vivemos um embate estrutural. A internet ainda é um universo livre e incontrolável no que tange ao acesso a informação, apesar de termos, no Brasil,  uma internet de péssima qualidade, muito cara  e de difícil acesso para a maioria da população.
Mas os movimentos sociais que antecederam a Copa das Confederações, em 2014, mostraram que a sociedade, que maioria – entre os mais jovens – eram midiatizados, mas não necessariamente politizados; apesar de muitas reivindicações serem justas e necessárias para a construção de uma nação mais solidária e equânime.
Alguns estudos de ilustres sociólogos, como o  professor Pedro Demo, revelam, no entanto, que o brasileiro ainda padece de um déficit de cidadania. Suas obras Cidadania Pequena e Cidadania Menor, ambas dos anos 2000, constatam um traço característico de nossa sociedade: somos mobilizáveis facilmente e também facilmente desmobilizáveis.
  Basta lembrarmos-nos de alguns exemplos: 1. A crise do apagão, no governo FHC ainda. O governo conclamou a população a mudar seu comportamento e poupar, a população atendeu a solicitação e poupou. Pagou caro por isso, pois o governo aumentou impostos para manter o lucro das distribuidoras, em detrimento do interesse popular.
2. Crise de 2013/14, milhões de brasileiros foram às ruas reivindicando melhoria dos serviços públicos, o governo respondeu alegando que era preciso uma reforma política e o que aconteceu foi a piora dos serviços públicos e o aumento de tarifas e a imensa insatisfação social.
3. O favorecimento dos cartórios, serviços essenciais para a população, que é submetida ao jugo cartorial para realizar quase todo tipo de transações e a Câmara aprova aumentos estratosféricos para os cartórios, em detrimento das necessidades e condições da população.
E aqui está a essência desse embate estrutural: a população acessa as redes sociais, aos aplicativos e protesta, dissemina viralmente seu descontentamento, mas não se mantém mobilizada para acompanhar o processo decisório, que quase sempre favorece ao poder econômico.
As oligarquias de direita e de esquerda se tornam aliadas nesses momentos e se submetem ao poder do sistema financeiro; e quem recebe todo o impacto negativo é o cidadão, na forma de aumento de impostos contribuições compulsórias  e precarização dos serviços públicos.
 Basta olharmos a qualidade da saúde, da educação, dos transportes e da segurança pública, que em 2013 foram alvo de grandes reivindicações e em 2017 só pioraram em qualidade e aumentaram em custos sociais e financeiros, gerando enorme insatisfação social.
A discussão em torno da representatividade política –  nesse contexto de crise e transformação social no Brasil e no mundo, merece uma atenção especial: por um lado temos: inovações  tecnológicas fantásticas. São soluções que a tecnologia oferece, mas somente num determinado nível, porque do ponto de vista educacional e político não há esforços institucionais significativos, tampouco partidário, nem social, para mudar a lógica da manipulação popular, tanto pela direita como pelas esquerdas, que convergem em submissão ao sistema financeiro e à lógica clientelista e fisiológica de sempre.
Basta olharmos as operações policiais em curso, o jogo do judiciário atual, a ação dos partidos, dos escritórios de advocacia,  para entendermos bem esse processo de manipulação e de maquiagem da realidade.
 A carência maior é de mobilização permanente da sociedade para pressionar o Estado a promover uma discussão profunda, via Congresso Nacional, com toda sua estrutura partidária, que não consegue inovar e nem incorporar novas práticas, novas bandeiras sociais e políticas, na prática; embora no discurso apareçam novos sofismas.
E necessário acontecer uma discussão profícua sobre o futuro Brasil. Seremos uma nação verdadeira, ou permaneceremos esse amontoado de gente indignada e perplexa frente às transformações que a tecnologia oferece e as demandas sociais, econômicas e políticas que se apresentam a todos nós?
Essa é a essência, a meu ver, de uma representatividade política real, efetiva e eficaz, capaz de promover as transformações necessárias para enfrentar os desafios do século XXI.

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